quinta-feira, 9 de julho de 2020

A CONSTRUÇÃO DE UMA MÚSICA NACIONALISTA NO BRASIL IMPERIAL: O ROMANTISMO, O REALISMO E O PROJETO DE NAÇÃO

A CONSTRUÇÃO DE UMA MÚSICA NACIONALISTA NO BRASIL IMPERIAL: O ROMANTISMO, O REALISMO E O PROJETO DE NAÇÃO
Marco Magli – R.A: 00180650
Professor: Alberto Luiz Schneider
Curso de História/Licenciatura – Noturno
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
2017

Resumo: No século XIX, repleto de Revoluções Burguesas por toda Europa, a estética nacionalista tornou-se um aliado discursivo para os projetos insurgentes. Na literatura, nas artes plásticas, no teatro e na música os temas que refeciam símbolos que remetem à uma “cultura nacional” são explorados, principalmente nos Estados Modernos que, neste período surgem. Assim, esta linguagem chegou ao Brasil ainda neste século com uma variedade de autores e estilos. Vários dos fatores no Brasil podem ter ajudado o estabelecimento de uma música nacionalista, como uma tentativa de definir uma Unidade territorial, uma guerra violenta com um país vizinho, um esforço no sentido de comprendeender “o povo brasileiro” e a presença de uma academia de artes atualizada aos padrões europeus durante o século, por exemplo. Este texto pretende mostrar como vários elementos desse nacionalismo já se fazem presente no século XIX, em diferentes estilísticas musicais, bem como mostrar que esse repertório musical é também um rico arquivo documental para se analisar os projetos e discussões sobre o Brasil nos finais do oitocentos.   
Palavras-chave: Música brasileira oitocentista; Nacionalismo; Romantismo; Realismo;









Introdução
O estudo da História da Música, apesar de parecer um tema estrito, pode oferecer a visão global de uma sociedade. Como toda forma de discurso, a música tem também intencionalidades explícitas e implícitas, e desde seus primórdios vem transformando a forma de comunicação da humanidade. A linguagem musical é dotada de uma historicidade que se traduz, não só nas composições com seus arranjos estilísticos e estéticos, mas também nas próprias ações de seus compositores, suas relações e enquadramentos sociais.  
É importante entender como a música do período Romântico no Brasil, que se inicia com claras influências e aproximações de uma “música europeia” durante o século XIX, transforma-se ainda neste século em uma expressão musical nacionalista. Ainda assim, expressões de um Realismo musical tardio também participam deste projeto de forjar uma identidade nacional. Esse percurso de algumas décadas é essencial para entender, não só o movimento musical no Império, mas também as conjunturas e programas políticos que surgem neste período. Estudar se essa transição foi paulatina ou repentina pode dizer muito sobre a noção de temporalidade dos processos históricos do oitocentos brasileiro, bem como a força desses projetos de nação insurgentes. 
Para tanto, é imprescindível discutir a noção de nacionalismo: como este movimento se desenvolveu na Europa, se há um projeto coeso e unitário ou vários programas nacionalistas, se esta é uma proposta progressista, conservadora ou múltipla, quais elementos constituem uma “arte nacional” e como o nacionalismo é apresentado em outras expressões artísticas e culturais. Além disso, é importante investigar se a música é influenciada por fatores políticos e de composição do Brasil, quais seriam eles, como influenciariam esta produção artística.
Aparentemente pode parecer contraditório, o fato do nacionalismo estabelecer-se no período romântico, que se opõe ao realismo. Com menos importância dada aos temas quotidianos do mundo real, a imitação da natureza e a crítica social do Realismo, a escola romântica valoriza as emoções, a subjetividade e algumas vezes, no caso brasileiro, a visão idealizada do indígena. Inclusive os próprios nomes das obras remetem à esta concepção, como “Canção do Gondoleiro”, Mendelssohn (1809-1847), representante do realismo, ou “Ode à Alegria”, de Beethoven (1770-1827), talvez a maior marca do romantismo. Ora, como uma música que se opõe a este estilo realista será frutífera para o estabelecimento de uma música nacionalista. Em outras palavras, o nacionalismo, por tratar temas folclóricos, populares, usando a língua nacional, não estaria mais perto de um realismo por tratar de questões sociais concretas e latentes, ou se aproximaria do romantismo, em que se tenta “inverter uma tradição”, com discurso inflamado e épico?
A metodologia empregada para explorar essas problematizações é a análise de textos acadêmicos que discutem, desde a noção da própria musicalidade em si do século XIX, até o estudo do nacionalismo no Brasil em suas particularidades. Entre as referências escolhidas, destacam-se estudos recentes, que já atribuem ao século XIX aspectos da estética e do projeto nacionalista à música, contudo não serão descartados autores anteriores que consideram que essa noção só se materializa na produção musical brasileira no século XX. Além disso, alguns estudos sobre compositores brasileiros e suas obras ajudarão na análise de aspectos formais das músicas exploradas no texto. Assim pretende-se estabelecer uma curta discussão historiográfica, apontando o argumento das diversas correntes e autores, para que em uma síntese, seja discutido o caráter nacionalista originário do século XIX nas artes sonoras.

1 – Romantismo e Realismo musical no Brasil
A Europa no século XIX passou por uma série de revoluções liberais, influenciadas pela Revolução Francesa (1789). Esse processo conhecido como Primavera dos Povos consiste em revoluções nacionais em países que sofriam no século XIX uma Revolução Industrial atrasada aos padrões europeus, e portanto extremamente acelerada. Embora esses processos tenham sido extremamente diversos entre si espacial e temporalmente, se fosse preciso encontrar um fator comum entre eles seria “claramente [...] uma afirmação de nacionalidade, ou melhor, de nacionalidades rivais.” (HOBSBAWM, 1982, p. 97) No bojo do surgimento de novos Estados Nações, se faz presente a necessidade de justificativas nacionais, ou seja, argumentos daqueles favoráveis às criações de suas pátrias que baseiem essa nova estruturação estatal que se propõe. 
As artes têm uma função discursiva importante nesta “argumentação”. São nas expressões artísticas do oitocentos, que começam a surgir compilações de elementos culturais comuns à um “povo”, como uma característica geral de vanguardas europeias. Na Literatura, o Romantismo, presente na Europa já nos finais do setecentos, tem como projeto o rompimento com o posicionamento estético-racional do Arcadismo. Assim prevalece a interpretação da realidade por uma “lente” dos sentimentos, combinados com uma postura de valorização individual e subjetivista, marcada também pela exaltação de certos valores burgueses, como trabalho e esforço. Na Alemanha já no começo do século XIX o nacionalismo estava bastante desenvolvido, com uma cultura do germanismo sendo difundida desde o século anterior. Em 1808, Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), filósofo saxão publica Discursos à Nação Alemã, uma obra com referências comuns de uma história e nacionalidade germânica. 
Na literatura brasileira, por exemplo, 1836 foi um marco. A Nitheroy, Revista Brasiliense de Ciências surgia, com a epígrafe “Tudo pelo Brasil, e para o Brasil”, e nesta edição continha um manifesto de nome “Discurso sobre a história da literatura no Brasil” e de autoria de Gonçalves de Magalhães (1811-1882), que em seu primeiro livro, “Poemas”, quatro anos antes já demonstrava elementos nacionalistas. Este texto afirmava que a literatura “nacional”, até 1808, havia apenas importado as estilísticas, formatos e temas da literatura europeia, em especial portuguesa.
Na música houve uma lacuna temporal maior entre o desenvolvimento das tendências estéticas propostas na Europa e o acompanhamento dessas estilísticas por compositores brasileiros. No Brasil, o Romantismo e o Realismo Musical convivem de maneira sobreposta temporalmente durante o século XIX, sem fronteira clara que delimite a passagem de um para outro. Estes dois estilos artísticos têm, na música, conotações próprias de sua historicidade, não sendo tão fácil ou acertado muitas vezes a comparação extrema ao movimento literário. 
Uma das primeiras vezes que o termo “réalité” surge ligado à análise musical é pelo musicólogo belga François-Josepsh Fétis (1784-1871) na Revue et Gazette musicale (1852). O termo originalmente estava ligado à noção de imitatio naturae, conceito importante nas artes e ciências europeias do século XVIII, louvando a reprodução de elementos da natureza, no qual se opõe a um “idealismo artístico”. Privilegia a “verdade” acima da “beleza” e considera a música wagneriana como “do futuro”. O Romantismo musical pode ser definido resumidamente no trecho de Corrêa abaixo:
No romantismo, entretanto, a ideia de imitação já não se fazia mais presente e iniciava-se a substituição dos gêneros e tipos pela expressão individualizada, transformação que se dá em concomitância com a citada passagem da prática comum para as pesquisas individuais buscando renovação da linguagem tonal. (CORRÊA, 2016, p.59)
Essa lacuna temporal para os estilos musicais em voga chegarem ao Brasil deve-se muito ao fato das obsoletas condições infraestruturais e educacionais no setor musical. Até a chegada da Família Real e da corte portuguesa, em 1808, o ensino e a prática da música estavam basicamente restritos ao ambiente eclesiástico. O advento da transformação do Brasil em sede da monarquia portuguesa trouxe sabidos investimentos em arte. A biblioteca musical dos Bragança, trazida na travessia, continha um dos maiores e mais atualizados acervos do mundo. Dom Joao VI (1767-1826) requisitou, logo nos primeiros meses, cantores e instrumentistas, construiu o importante Teatro de São João e reformou a Capela Real. Contudo, apenas em 1848 o “Conservatório de Música” do Império, planejado desde 1831, foi inaugurado, cinco anos depois de reestabelecia da orquestra da capela (1843) e quatro após a retomada da temporada de óperas (1844). No discurso de inauguração, seu diretor, Francisco da Silva afirma que esta instituição aumentaria “patrimônio moral e intelectual da pátria”. (SILVA, 1848, p.11)
O Realismo, que foi anterior na Europa, e o Romantismo, posterior, no Brasil vêm no mesmo período conturba das décadas de 1830-40. Essas duas escolas novas teriam apenas a Música Sacra como antecedentes no Brasil, esta inclusive, apesar de perder espaço no século XIX, continuou a ser produzida por este século, principalmente nas Minas Gerais e nas grandes cidades nordestinas. Tanto Realismo como no Romantismo brasileiros é possível encontrar traços nacionalistas em composições. Um exemplo do primeiro seria Alberto Nepomuceno (1864-1920) e do segundo Carlos Gomes (1836-1896).
2 – O nacionalismo musical
Na Europa, o nacionalismo musical já pode ser identificado como expressão forte a partir da década de 1820. Chopin (1810-1849), é um dos primeiros compositores a colocar elementos da dança folclórica polonesa polka em suas obras, em 1825, com 15 anos, já compondo suas “Mazurcas”. Mas só com o tcheco Dvorak (1841-1904), desde sua primeira obra conhecida “Polka não-me-esqueças em Dó Maior” (Polka pomněnka) (1854), o nacionalismo musical atinge seu cúmulo nesta estética. Mas afinal, quais são os elementos que compõe uma música nacionalista? O excerto abaixo, apesar de ser bastante resumido explicita bem estes aspectos:
"A música se diz nacionalista, quando realmente contém elementos musicais característicos a um determinado povo ou nação. Desses elementos, os principais são: o ritmo, as características melódicas, o idioma, o folclore e outras manifestações populares ou patrióticas." (VALLE e ADAM, p.85, 1986)
No Brasil, elementos nacionais na música começam a aparecer em composições da década de 1850, mas acentuam-se com o passar do século, e concentraram-se especialmente nos últimos dois decênios dele. Pode-se dizer que a primeira obra musical com aspectos de um nacionalismo brasileiro seria “A Cayumba – Dança dos negros” do compositor campinense Carlos Gomes, famoso por suas óperas e hinos, escrita em 1857. 
Após a composição dessa música, o autor compôs então toda uma peça chamada “Quilombo”. Os motivos dessas composições são inspirados por danças e ritmos negros, não só brasileiros, como o movimento “Bamboulla”, dança negra das Antilhas. Em 1870, Carlos Gomes compõe e apresenta em Milão a ópera “Il Guarany”, que apesar de ser cantada em italiano, apresenta a temática da colonização no Brasil com enfoque sobre uma personagem indígena. Carlos Gomes foi influenciado a compor e apresentar essas obras pelo clarinetista amador e joalheiro francês Henrique Luís Levy (1829-1896), que depois abriria a loja de instrumentos mais antiga do Brasil e seria pai de Alexandre Levy (1864-1892), importante nome da “geração de 1870”
Ainda em 1869, o reconhecido compositor paranaense e diplomata Brasílio Itiberê da Cunha (1846-1913) compõe “A Sertaneja”, um rondó-imperfeito com elementos de rapsódia. Ela foi inspirada por melodias populares e folclóricas, especialmente a canção de fandango “Balaio, meu bem, balaio”. Esta canção popular é ainda muito conhecida como uma dança tradicional na região Sul do Brasil. Embora seja um tema brasileiro, o conteúdo encaixa-se em uma forma estética ainda europeizada. Esta obra é muito bem analisada nos seus aspectos musicais formais no artigo “A sertaneja de Brasílio Itiberê: nacional ou estrangeira, amadorística ou sofisticada?” dele retira-se o excerto:
A análise das seções formais e a recorrência de motivos observados em A Sertaneja de Brasílio Itiberê revelam um estilo composicional que combina influências de matrizes nacional e estrangeira muito mais sofisticado, estruturado e unificado do que supõe a visão musicológica ainda difundida sobre o compositor. (BORÉM e JUNIOR, 2008, p. 30)
Brasílio Itiberê da Cunha estava bem ambientado em um projeto político da corte brasileira. Muito jovem, em 1870, já assumiu o posto de diplomata por indicação do próprio D. Pedro II. Esteve em missões na Itália, Alemanha, Peru, Bélgica e Paraguai. Na Europa relacionou-se com diversos compositores importantes do período, como Liszt. Também frequentou a Faculdade de Direito de São Paulo, onde realizou uma série de concertos beneficentes para arrecadar fundos à “Sociedade Redemptora”, que comprava a liberdade de crianças escravas. 
Outro compositor importante para esse movimento musical brasileiro é o pianista paulista Alexandre Levy. Ele conviveu desde cedo em um ambiente repleto de música e influências artísticas, como seu pai ou o próprio Carlos Gomes. Levy é compositor da peça “Variações sobre um tema popular brasileiro”, que foi composta entre 1884 e 1887, não se sabendo ao certo. Contudo, o tema dessa música tem inspirações na canção folclórica “Vem cá, Bitu” (hoje conhecida como “Cai, cai balão”). Apesar de sofrer duras críticas quanto a sua melodia, por ter intervalos muito distantes, alternando repentinamente notas graves e agudas, tudo indica que Levy fez propositalmente esta composição para preservar a melodia original cantada pelo povo. Alexandre Levy também usa o motivo de “Balaio, meu bem, balaio” em sua Suíte Brasileira, no quarto movimento, batizado de “Samba”. Explicitamente, Levy expressa suas concepções quanto às composições nacionais ao escrever críticas sobre concertos que assistiu na Europa, deixando claro sua veneração por um folclore nacional e uma música popular.
                       Para finalizar o concerto, o sr. Toboso tocou só, uma deliciosa Bondalla  hespanhola, ou para melhor dizer um verdadeiro basar (sic) das daças (sic) nacionaes da Hespanha. Este trecho é realmente magnífico pela sua côr-local e pelo caracter essencialmente saleroso, que nos faz divagar sobre as bellezas andaluzas e sobre o poetico e sensual das muchachas do paiz de Calderon [...] Não queremos de maneira alguma eliminar do grupo musical de Permanentes as polkas, tangos e dobrados, pois é forçoso confessar que entre os nossos tangos muitos há que são verdadeiramente bons e que até representam a nossa musica popular (FIGAROTE, 1890, op. cit., p. 2).
Todos os autores brasileiros supracitados podem estar encaixados na categorização do Romantismo, não necessariamente compondo apenas obras deste estilo. Um autor sempre lembrado pela sua contribuição à música nacionalista brasileira é Alberto Nepomuceno. Cearense, estudioso de Humanidades e Filosofia, e partidário de um projeto político progressista aos padrões da elite brasileira. Contudo, esse autor não pode ser tão bem encaixado como um Romântico, como o foi por muito tempo. Passou anos estudando música em Roma, Paris e Berlim, tudo isso com ajuda financeira de amigos, pois, por ser abolicionista e republicano, jamais conseguiu uma bolsa do Império, diferente de Itiberê da Cunha. 
Ele retorna ao Brasil, nos últimos vinte anos do oitocentos, com uma preocupação de crítica social, e isso pode ser exposto pelo poema de seu amigo pessoal Machado de Assis (1839-1908) “Coração Triste”, musicado por Nepomuceno. O compositor queria que as músicas de compositores brasileiros fossem cantadas em português, mas não uma música popular, mas sim uma música “culta” que moldaria uma nacionalidade para a elite do país. Na sua série “A Brasileira”, de 1891, o último movimento, intitulado “Batuques” é um rearranjo de “Dança de negros”, música escrita por ele em 1887. Embora já situada no século XX, em 1903, há uma canção em que Nepomuceno expressa o sentimento titubeante da elite brasileira em afirmar-se nacional, chamado “Coração Indeciso”:
Ao princípio era apenas simpatia, já bem perto do amor, e minha alma vibrava; alma fulgia num festivo esplendor. E tu tão meiga e doce e terna eras então... Tomei como se fosse meio sim, meio não! Depois já era mais que simpatia, muito mais, era amor um palpitar perpétuo; a alma sofria num perpétuo terror. Mas teu olhar espera, dizia. E que expressão! Comigo tinha que era meio sim, meio não. Finalmente foi mais que simpatia, e foi mais do que amor: foi paixão, desvario; eu não vivia senão por teu favor. Mas tu, quando eu por fim te abri meu coração, não me disseste sim, nem me disseste não. (Canção “Coração Indeciso” de Alberto Nepomuceno)

Nepomuceno pode ser considerado um Realista, principalmente se for analisada sua séria “A brasileira”. Os quatro movimentos focam-se, respectivamente, na natureza, urbanidade, por ser derivado de um maxixe que era uma dança urbana, sociedade, representado pela ideia de uma rede balançando, e política, por fim mimetizando a percussividade africana logo após a abolição. A questão da imitativo naturae está bem presente no primeiro movimento, e críticas sociais racionais estão colocadas sobre os outros. 

Conclusão
A música brasileira do século XIX é um imenso arcabouço de fontes documentais para a compreensão das dinâmicas sociais, políticas e econômicas. Muitos dos compositores do oitocentos brasileiro ainda são pouco estudados, outros, já mais analisados anteriormente, ganham nos últimos anos estudos revisionistas que pretendem reconstruí-los como sujeitos histórico e que, muitas vezes, recusam rótulos estilísticos já colocados anteriormente sobre estes músicos. É difícil saber a dimensão política e propagandística das músicas Classicistas no Brasil. Muitas vezes tende-se a ficar preso na análise, de que por serem de classes médias ou altas, os compositores se restringiam ao uso estritamente individual, com aspectos de autopromoção, como a carreira de Brasílio Itiberê da Cunha. 
Contudo, o movimento musical que cresce exponencialmente no século XIX diz muito sobre o convívio das tendências artísticas no Brasil, bem como as diversas táticas compositivas que visam a criação de um sentimento nacional. O Realismo e o Romantismo no Brasil, em aspectos musicais, desenvolvem-se simultaneamente, muitas vezes sendo difícil diferenciá-los, mais do que nas artes plásticas ou literárias, por conta desta temporalidade sobreposta que faz modismos dos períodos estarem presentes em ambos os estilos. Esta noção, da concomitância do desenvolvimento destes dois estilos no brasil, diz muito mais sobre aspectos sociais, políticos e econômicos, como transferência da corte para o Rio de Janeiro, de que a diferença dos projetos apresentados pelo Realismo musical e pelo Romantismo.
Podemos ver, que a maneira mais precisa de analisar-se essas contribuições da música do XIX para uma discussão sobre nação e projeto político é fazer um estudo casuístico, de cada compositor, sua biografia, suas composições e concepções musicais e sociológicas. Por exemplo, Nepomuceno e Itiberê da Cunha podem aparecer politicamente afastados. 
O primeiro, muito mais ligado a um projeto liberal republicano, que ele acompanhou na Europa em seus tempos de estudo discussões sobre esse projeto. Brasilio Itibere da Cunha, já estaria muito mais relacionado a um entrosamento com a corte portuguesa, cumprindo função diplomática e defendendo os interesses da Coroa. Entretanto, a música de ambos contém aspectos nacionalistas, apesar das diferenças de projeto político e musical, sendo Nepomuceno hoje considerado de grande influência Realista, principalmente em sua série “A brasileira”. Na música de Itiberê da Cunha é possível enxergar a mixórdia de temas e motivos brasileiros, mesclados com uma estética e um formalismo composicional europeu, marcando a tentativa de tornar mais europeia a música brasileira.
Já Levy, que é um romântico assim como Itiberê da Cunha, prefere ignorar a estética melódica europeia de uma certa “parcimônia intervalar das notas”, para preservar a melodia popular brasileira. Muito se considera que, por Levy ser judeu e sua família estar no Brasil por perseguições antissemitas na Europa, ele realiza uma recusa a estética europeia e considera o Brasil sua pátria, tentando estabelecer uma estética própria para ela.
Destarte, os aspectos nacionalistas encontrados em peças musicais brasileiras do século XIX deve-se às mais diversas inspirações, musicais, sociológicas e política. Muito deste nacionalismo musical brasileiro, que servira de inspiração para Villa-Lobos no século XX, é marcado pelo sincretismo de estilos. Procurar uma música nacionalista “pura” no Brasil, baseado nos padrões europeus de nacionalismo, é hoje, além de um anacronismo, um movimento analítico pouco fértil. Deve-se compreender a música nacionalista brasileira do século XIX como mais uma representação cultural do Brasil, que embora saia das elites, é baseada na heterogeneidade das inspirações e composições e alimentada pelas várias culturas, europeias, afro-brasileiras e africanas e indígenas, presentes aqui.

Referências bibliográficas:
BORÉM, Fausto; JUNIOR, Mauro Luiz Marocchi. A sertaneja de Brasílio Itiberê: nacional ou estrangeira, amadorística ou sofisticada? Revista Música Hodie, v. 8, n. 8, Universidade Federal de Goiás, Goiás, 2008. ISSN 1676-3939. Disponível em: <https://www.revistas.ufg.br/musica/article/view/6007/12350>. Acesso em: 11 nov. 2017. 

CORRÊA, ANTENOR FERREIRA n. 21 (2016) - Silogismo e análise musical em Carl Dahlhaus. ArteFilosofia - Publicação Semestral Revista de Estética e Filosofia da Arte do Programa de Pós-graduação em Estética e Filosofia da Arte - UFOP

DUDEQUE, Norton. Realismo musical, nacionalismo e a Série Brasileira de Nepomuceno. Música em Perspectiva, [S.l.], v. 3, n. 1, mar. 2010. ISSN 1981-7126. Disponível em: <http://revistas.ufpr.br/musica/article/view/20985/28623>. Acesso em: 11 nov. 2017. doi:http://dx.doi.org/10.5380/mp.v3i1.20985.

FIGAROTE. Música no Jardim do Lago do Palácio. Correio Paulistano, São Paulo, 11 mar. 1890. n. 10052. Palcos e Salões, p. 2.

HOBSBAWM, Eric. A Era do Capital - 1848-1875. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982;

SILVA, Francisco Manuel da. Discurso pronunciado por ocasião da instalação do Conservatório de Música. Rio de Janeiro, 1848. Apud. DE PAOLA, Andrely Quintella e GONSALES, Helenita Bueno. Op. Cit. p. 22-28

VALLE, José Nilo; ADAM, Joselir Nísio Guimarães. Linguagem e Estruturação Musical. 3. ed. Curitiba: Impressora Cacique, 1986.

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