sábado, 11 de março de 2017

Uma fonte esquecida e limpa: um resumo sobre energia nuclear

Uma fonte esquecida e limpa: um resumo sobre energia nuclear 

de Marco Magli

Venho por meio deste texto defender uma forma de obtenção de energia, viável, com bom custo/benefício e limpa: a Energia Nuclear. Basicamente, a energia nuclear é liberada a partir da interação de núcleos de átomos. O desenvolvimento na pesquisa dessa área avançou exponencialmente no período da 2° Grande Guerra, em meados do século XX, quando em 1942, a primeira reação em cadeia foi obtida na Universidade de Chicago, pelo Projeto Manhattan.

A primeira usina nuclear, para gerar energia elétrica a parti da fissão nuclear com fins civis, foi inaugurada em 1956 no Reino Unido. A Guerra Fria, período do final a da 2° Guerra Mundial até 1991, propiciou avanços neste promissor setor, até 1986, quando um desastre nuclear, provocado por falha humana, ocorreu em Chernobyl. A partir deste momento a energia nuclear passou a ser rejeitada, pela sociedade e por governos, sofrendo com um forte lobby de empresas especializadas em ouras matrizes energéticas.

Em 1984 começa a funcionar a primeira usina nuclear no Brasil, mesmo que fabricada quase inteiramente na Alemanha, Angra 1. É nessa época, no fim dos anos 1980, que surge a Aben (Associação Brasileira de Energia Nuclear) e o Apub (Programa de Aceitação Pública de Energia Nuclear), ambos para defender essa energia no Brasil.

Ultimamente, com novas tendências ambientais, políticas e econômicas, como a preocupação com o aquecimento global, o aumento do preço do petróleo e as tensões no Oriente Médio, a energia nuclear parece ser uma alternativa a se pensar.

Muitos países estão construindo usinas nucleares, só a China tem a intenção de construir brevemente 109. Atualmente 31 países possuem reatores nucleares gerando energia elétrica em seu território, mas esse número tende a aumentar.

O Brasil construir seu terceiro reator em 2009, Angra 3, mas nos últimos tempos tem diminuído o investimento neste importante ramo energético. Temos apenas 3% de nossa energia total sendo gerada com usinas nucleares. Estamos muito distantes de países desenvolvidos, com a França, com 75% ou os EUA, com 23%.

A “matéria prima” da energia nuclear é urânio (ou plutônio, ou césio, etc...) enriquecido, não uma fonte fóssil, ou seja, não emite gases estufa, uma de suas principais vantagens. O Brasil possui um dos urânios de mais alta qualidade do mundo, porém não tem tecnologia suficiente para efetuar seu enriquecimento.

Outra qualidade marcante das usinas nucleares é que ela precisa de muito menos espaço de instalação do que outras matrizes, em comparação com hidroelétricas ou maremotrizes, interferindo menos no meio ambiente. Hidroelétricas, nossa principal fonte, também podem alterar o ciclo de chuva do local onde está. Mais uma qualidade da energia nuclear é que é possível fazer o reprocessamento do urânio, não completamente, pois 40% da massa inicial é perdido no processo, que o torna uma energia “semi-renovável”.

Os maiores desafios quanto a energia nuclear são evitar novos acidentes e isolar o lixo radioativo que se forma na produção. Quando ao primeiro, se tem inúmeras vezes mais mortes por acidentes ligados à obtenção de combustível fóssil do que ligados à energia nuclear, sempre relacionados com erros humanos, de operação ou planejamento. Já o lixo radioativo pode ser resolvido apenas com soluções um pouco caras. Mas é importante lembrar que tecnologias imprescindível e perto de nós sofrem dos mesmos problemas, como máquinas de raio X. Por isso é necessário investir pesadamente na pesquisa nuclear, para que o desenvolvimento de novas tecnologias baratas e seguras seja veloz.

Bibliografia:

O sentido ontológico do "descobrimento" da América


O sentido ontológico do descobrimento da América

                                            Tema: História da América colonial espanhola 

 de Marco Magli

Resumo: Esta resenha busca, de forma concisa e objetiva, mostrar os principais conceitos apresentados por Edmundo O’Gorman em sua Obra “A Invenção da América”. Primeiramente é mostrado um percurso cronológico da construção da ideia do descobrimento da América, desde o século XVI até o século XX, discorrendo acerca de suas lendas, documentações e mentalidades de cada período. Na segunda parte do trabalho, busca-se mostrar como autor define este sentido do ser América, baseado em preceitos ontológicos de Heidegger.


            “A invenção da América” de Edmundo O’Gorman é uma obra inovadora. Ela critica um objeto de pesquisa, que se analisado sob uma perspectiva rasa parece já amplamente explorada e debatida pelos historiadores: a descoberta da América. Entretanto, o autor deixa claro que o objetivo de sua obra não será analisar a história do descobrimento da América em si, mas sim a história da ideia do descobrimento desse continente, a definição de seu ser do ente América e, por conseguinte seu sentido.

Já na primeira página da obra o autor se esforça em deixar seu objeto de estudo claro: “(...) o problema que colocamos não consiste em pôr em dúvida se foi Colombo ou não quem descobriu a América, já que essa dívida supõe admitir a ideia de que a América foi descoberta. Não, nosso problema é logicamente anterior e mais radical e profundo: consiste em pôr em dúvida se os acontecimentos que até agora têm sido vistos como o descobrimento da América devem ou não continuar entendendo-se como tal.” (O’Gorman, 1992, pg. 26)
            
        O’Gorman inova, pois ele lança este livro em 1958, lançando este velho tema da historiografia sob a luz de um pensamento filosófico pulsante e vivo da época, o heideggerianismo, preocupado pela recolocação do problema do ser, ou seja, o ponto de vista ontológico. O’ Gorman não se restringe a só uma área do conhecimento, trazendo sempre a história conjuntamente à filosofia e à geografia nesta obra. Por conta dessa multi-especialidade e facilidade de caminhar entre os diversos tipos de conhecimento, sempre pensando no México, seu país, e na América Latina, O’Gorman faz parte da Academia Mexicana de Letras.

Este autor nasceu em 1905, bem no início do século XX, e por isso, é fácil observar em seus escritos sua verdadeira militância contra uma escola que teve enorme século anterior a ele: o positivismo. O’Gorman combate a ideia de que a história caminha, assim como o Homem, para o progresso.

Em “A invenção da América”, antes de tratar da criação do ser América, o autor preocupa-se em fazer uma análise essencial para entender o desenvolvimento da ideia do descobrimento, assim como todos os mitos e lendas que são carregadas com ela, em uma perspectiva cronológica. É disso que trata primeiro capítulo da obra. É assim explicitado na obra: “(...) será necessário reconstruir a história, mas não a do descobrimento da América, mas a da ideia de que a América foi descoberta, o que não é o mesmo (...)”. (O’Gorman, 1992, pg. 28)

Na primeira parte da obra o autor traça uma retomada cronológica de como a história do descobrimento foi entendida e contada em suas mais diversas versões. Assim o autor apresenta a lenda do “piloto anônimo”, que afirma que “(...) o motivo que levou o almirante [Colombo] a fazer a travessia foi o desejo de mostrar a existência de umas terras desconhecidas, das quais tinha notícias por informações que lhe dera um piloto, cuja embarcação havia sido lançada às praias por uma tempestade.” (O’Gorman, 1992, pg. 28)

Mas por que a apresentação dessa lenda, se não se discutirá a história em sim do descobrimento, mas a ideia por trás desta história? Pois como O’Gorman explica “(...) o importante é que, ao surgir a “lenda” como explicação histórica da viagem, iniciou-se o processo de desconhecimento da finalidade que realmente a incentivou a esta circunstância, que chamaremos de ‘ocultação do objetivo asiático da empresa’ (...)”. (O’Gorman, 1992, pg. 31)

Esta “ocultação do objetivo asiático da empresa” se conserva por muito tempo, dentro das diversas narrativas até, pasme, o século XIX. O autor então apresenta algumas formas de como esse “descobrimento da América” foi entendido com o passar do tempo.

Primeiramente é comparada a tentativa de explicação da descoberta de Oviedo e de Gómara, ambas escritas ainda no século XVI. Essas explicações se opõem, principalmente pelo fato da primeira duvidar da lenda do “piloto anônimo” e atribuir o feito ao almirante conhecido, Colombo, enquanto a segunda crê nela e duvida da consciência de Colombo em descobrir novas terras.

Então ambas as teses são mescladas pelo filho de Cristóvão Colombo, e acompanhante na quarta viagem à América, Dom Fernando Colombo. Ele expõe que se ignorava as terras antes do seu descobrimento, como defende Gómara, mas atribuir ao seu pai a consciência da existência daquelas terras, como advogava Oviedo. Assim Dom Fernando Colombo coloca que seu pai não tinha certeza da existência daquelas terras, mas teve a ideia que a ocidente da Europa deveria existir um continente ignorado, devido à seus saberes científicos e erudição, e a navegação foi a comprovação empírica de uma hipótese científica.

Essa tese acima foi escrita ainda no século XVI e será muito divulgada. Outros autores que se interessaram pelo tema irão se basear nela, para assim já escapar todo paradigma da do “piloto anônimo” e da “consciência de Colombo”. A tentativa de explicação de Bartolomeu de las Casas, contemporâneo de Dom Fernando Colombo, segue a mesma linha, porém ao invés de atribuir a consciência de novas terras a ocidente à erudição de Colombo, ele considera que “(...) o descobrimento da América é um cumprimento do um desígnio divino, realizado por um homem escolhido para esse fim. Esse homem foi Cristóvão Colombo, a quem Deus dotou de todas as qualidades necessárias para realizar a façanha.”. (O’Gorman, 1992, pg. 39)

Essa explicação de las Casas abre espaço para uma discussão acerca da mentalidade europeia cristã do século XVI em que “(...) o importante é que Colombo abriu o acesso a regiões da Terra, repleta de povos aos quais é urgente pregar a palavra revelada e conceder-lhes a oportunidade do benefício dos sacramentos antes que ocorra o fim do mundo (...)”. (O’Gorman, 1992, pg. 40)

Assim encerramos a análise da, denominada pelo autor, “primeira etapa do processo da história da ideia do descobrimento da América”, e definida pelo mesmo como: “(...) a interpretação consiste em afirmar que Colombo demonstrou que as terras que encontrou em 1492 eram um continente desconhecido, porque com essa intenção realizou sua viagem.”. (O’Gorman, 1992, pg. 57)

A segunda etapa considera que se Colombo não tinha a intenção de descobrir a América, nem teve ideia do que havia feito, então ao descobrir a América, cumpriu a intenção da História, a de que o homem deveria ter conhecimento da existência do referido continente.

Então O’Gorman traz ao leitor as teses de Navarrete, Irving e Humboldt, todos autores do século XIX. Nesses autores o objetivo asiático da empresa de Colombo em 1492 não é mais ocultado e a explicação desses autores se dá a partir da ideia do anseio geral em se fazer uma rota marítima com as Índias pelo Ocidente.

Vale ressaltar o terceiro autor, Humboldt, que acrescenta em sua teoria que o devir histórico também faz parte da justificativa dessa navegação, deixando evidente o pensamento positivista da Alemanha da década de 1860. Assim O’Gorman explicita a ideia de Humboldt: “O que faz da empresa colombiana o ato significativo que se conhece como descobrimento da América é que, nessa empresa, realizou-se um desses progressos dos conhecimentos científicos em que se fundamenta, segundo vimos, a própria essência da marcha do homem em direção ao seu destino histórico.” (O’Gorman, 1992, pg. 51)
            
             O autor então, avança cronologicamente nas tentativas de explicação dessa viagem e alcança um autor contemporâneo a si. O’Gorman analisa a tese de Samuel Eliot Morison de 1942. Esta tese inicia-se como as anteriores, do século XIX, com a clara defesa do objetivo asiático da empresa colombiana. Contudo difere-se, das demais, pois Morison afirma que “Colombo sempre esteve convencido que havia chegado à Ásia desde a primeira vez que encontrou terra em 1492.” (O’Gorman, 1992, pg. 55)
            
          Portanto, “terceira etapa do processo da história da ideia do descobrimento da América”, assim denominada por O’Gorman, é aquela que hoje se ensina e venera nas escolas, chamada de tese do “descobrimento casual” da América. O autor explica o problema dessa tese: “Assim, o homem já não é servo do seu devir histórico (...) mas é escravo de não se sabe que processo mecânico dos entes materiais inanimados.” (O’Gorman, 1992, pg. 60)
            
              Após este momento de desconstrução, ou melhor, reconstrução da história da tese do descobrimento da América, desde o século XVI até o XX, é momento do autor aprofundar-se na sua discussão ontológica e conceitual sobre seu objeto, ou seja, a invenção do ser América. Então O’Gorman mostra alguns dogmas que são precursores da discussão do descobrimento da América. O primeiro é que este continente é um “ser descobrível”. O segundo, logicamente, é que este ser tenha um “descobridor”, dotando um sentido predeterminado a esse ser, que o autor tratara mais afrente em sua obra. Por fim supõe-se que “o descobrimento do ser da coisa é cumprido pelo mero contato físico com ela (...) Deste modo, teremos então não apenas a suposição de que o descobrimento é um ato em si, dotado, por isso, de um sentido ou de um ser predeterminado, mas também, coerentemente, teremos a suposição de que a coisa mesma é a que tem a intenção que dá ao ato o referido sentido.”. (O’Gorman, 1992, pg. 60)
            
        O autor então reafirma que a ideia do descobrimento da América não é satisfatória, pois trata-se de uma premissa ontológica na qual a América constitui este ser descobrível. O ser da América é um ser baseado nos outros continentes que se conhece neste período, Europa, África e Ásia, por isso seu sentido é ser a “quarta parte do mundo”. O que mostra esse sentido pré-encaminhado para a América é a própria escolha de seu nome, que seria a “terra de Américo”, mas como os outros continentes também tem nomes femininos, esse também deve ter.

Ou seja, a América é pensada como um continente a partir dos outros, é pensada, a priori. Este é, em síntese o conceito de uma América inventada, diferentemente da velha noção de uma América descoberta. Essa revolução conceitual de O’Gorman confere muito mais historicidade, dinamismo e vivacidade para a história americana, pois “sua história não será aquilo que a América ‘passou’, mas aquilo que ‘foi, é e continua sendo.’” (O’Gorman, 1992, pg. 67)

A segunda parte da obra de O’Gorman traz algumas preocupações diferentes da primeira, embora ambas sejam essências para o estabelecimento dessa invenção da América. Esta parte traz um estudo mais focado no pensamento e mentalidade no século XV e XVI sobre o que era o mundo e suas concepções geográficas e religiosas. Traz também ao leitor uma discussão linguística apresentada pelo autor sobre termos como, “mundo”, “terra firme” e “ilha”.

O autor difere a viagem colombiana da de Vespúcio, sendo que o primeiro era guiado por um pensamento a priori, ou seja, guiado pela imagem tradicional de mundo, onde havia um orbis terrarum que era um “mundo ilha”, cercado de agua pelos lados. Esta ideia a priori de Colombo é explicada pelo autor que “(...) como não pode colocar em crise a previa ideia que lhe deu vida, ou dito de outra maneira, que o fato de haver encontrado uma massa de terra firma num lugar não previsto, não conseguiu impor-se como a revelação possível, por Colombo acreditou poder explicá-la dentro do quadro da imagem tradicional do mundo.” (O’Gorman, 1992, p. 163.)

Já a ideia de Vespúcio surge a posteriori, ou seja, após suas experiências o italiano se rende ao pensamento de que o mundo não deve ser um “mundo ilha”, como tradicionalmente pensado desde a Idade Média, como mostra o autor: “(...) era forçoso concluir que se tratava de uma terra firme separada do orbis terrarum pelo mar. O que era então essa terra?” (O’Gorman, 1992, p. 157). “Suas afirmações foram a partir do reconhecimento do empírico, configurada sobre a posteriori de sua experiência, que exigia revisar a imagem medieval do mundo.” (O’Gorman, 1992, p.175).

Antes de partir para a tese do texto que é o sentido da América, o autor com uso de recursos geográficos, como mapas e portolanos, para mostrar como no século XVI, era das viagens ultramarinas, inicia-se um processo de mundialização, que parecido com a globalização, com o surgimento da internet, ou a Revolução Industrial com as rotas comerciais novas, é possível ver representações de encurtamento de distância, como por exemplo, o Cosmographiae Introductio  de 1507, que ao invés dos outros mapas que mostravam terras divididas por águas, este mostra mares divididos por continentes.

Vê-se então, que o século XVI que abre a possibilidade de ser abarcar no universal, a palavra mundo muda de significado, o poder do homem parece aumentar relativamente ao da natureza e o “mundo” passa a ser visto como um infinito campo de conquista. Ou seja, o orbis terrarum que até o final do século XV significava a crença que vivíamos em uma ilha cercada de água por todos os lados, muda para o conceito de que o mundo seja esse novo espaço, como explica o autor: “já não se identifica somente com a Ilha Terra, nem unicamente com o conjunto das duas grandes entidades insulares que agora se diz que engloba, mas, sim com o globo terrestre inteiro. “. (O’Gorman, 1992, p. 184).
  
Por fim, O’Gorman expõe sua principal tese, a que ele busca explicar o “(...) sentido próprio a essa entidade que está ali reclamando o seu reconhecimento e um ser específico que a individualize.”. (O’Gorman, 1992, p. 173). Para ele a América é um continente que é pensado a partir do conhecimento e da visão europeia e eurocêntrica. Uma excerto que exprime este sentido é: “O aparecimento no seio da cultura e da história, não certamente como resultado da súbita revelação de um descobrimento que tivesse exibido, de um golpe, um suposto ser misteriosamente abrigado, desde sempre e para sempre, nas terras que Colombo achou, mas como o resultado de um complexo processo ideológico que acabou, através de uma série de tentativas e hipóteses por atribuir-lhes um sentido peculiar e próprio: o sentido do ser da quarta parte do mundo. (O’Gorman, 1992, p. 179)

Outro excerto que demonstra este sentido empregado na América, é que a civilização europeia era considerada (por eles mesmos) “a civilização mais perfeita do ponto e vista do homem natural, mas que era também o reduto da única verdadeira civilização, aquela fundada na fé cristã e, principalmente, no sentido histórico transcendental do mistério da Redenção. (...) A Europa seria assim o único devir humano dotado de autêntico significado (...) norma suprema para julgar e apreciar as demais civilizações.”. (O’Gorman, 1992, p. 195).

Em suma, esse sentido próprio do ser América, essa individualização, não no sentido de ser indivisível, mas sim no sentido de se ter características ímpares e uma posição no mínimo diferente e desafiadora, essa individualização é, na verdade o que leva o nome da obra e o autor chama de “invenção da América”.

Destarte, este ser, sujeito ontológico, no qual o autor busca incessantemente em sua obra é o ser potencial. A América, como baseada nos princípios europeus é espelhada sempre nesta comparação, porém sem jamais ter tal capacidade de atingi-lo como sociedade e civilização. Portanto o ser da América é um ser potencial, é uma possibilidade que se debruça na sua irmã mais velha, a Europa, sem, porém, jamais alcançá-la, como mostra O’Gorman: “O “novo mundo”, pela sua condição não poderia realizar o ser do “velho mundo”.” (O’Gorman, 1992, p. 198).

Bibliografia:
O'GORMAN, Edmundo. A invenção da América: reflexões a respeito da estrutura histórica do Novo Mundo e do seu devir. São Paulo: Unesp, 1992[1]

Pompéia

Pompeia

Tema: História Antiga

de Marco Magli
           
Pompeia era uma cidade do Império Romano localizada cerca 20 quilômetros ao sul de Nápoles, uma cidade portuária em desenvolvimento, e também ao sul de seu sepultador, o Monte Vesúvio. Este vulcão, cuja etimologia é ainda discutida, foi responsável por inúmeras erupções, as mais antigas datadas da Idade do Bronze, sempre com magnitudes elevadas, expelindo além de gases e lava, também pedras vulcânicas.

Essa cidade foi fundada entre os séculos VI e VII a.C pelos Oscos, um povo proveniente da região fronteiriça entre a Campânia e o Lácio, porém em toda sua história recebeu influências gregas e fenícias, por conta de sua proximidade ao mar, possíveis de serem observadas em sua arquitetura.

Apenas em 89 a.C Pompeia foi anexada à República Romana, após a ocupação definitiva do general Luicius Cornelius Sula, e a partir de então passou a desenvolver-se infraestruturalmente de forma veloz e tecnológica, com a construção de um fórum, aquedutos, cerca de 25 fontes e banheiros públicos.

Contudo, o dia que destacou Pompéia na história foi 24 de agosto de 79 d.C, embora haja uma discussão quanto à esta data baseada em relatos como o de Plínio, o Jovem e até mesmo na arqueologia. Nesta época Pompeia continha cerca de 20.000 habitantes segundo censos e relatos contemporâneos. Às 13 horas deste dia surgiram pequenos tremores de terra que não eram fortes o bastante para alertar a população vizinha do vulcão que uma erupção estava prestes a acontecer.

Na verdade, dezessete anos antes da erupção que soterrou Pompeia e Herculano, em 5 de fevereiro de 62 d.C, as atividades deste vulcão começaram a reaparecer. Neste dia houve um abalo sísmico que devastou boa parte da região de Campânia. Segundo estudiosos, como Raffaello Cioni, este movimento já fazia parte da preparação geológica do futuro desastre.

A primeira fase da erupção iniciada no começo da tarde de 24 de agosto de 79 d.C foi relatado como extremamente agressiva e explosiva, com uma coluna de lava sendo jorrada a mais de 20 quilômetros de altura. Muitos moradores de Pompeia tentaram fugir pelo mar, porém um maremoto, formado devido aos abalos sísmicos, atingia o Golfo de Nápoles nesse dia impossibilitando a fuga marítima. A segunda fase da erupção começou cerca de 12 horas depois do início das atividades vulcânicas, e nesta etapa o Vesúvio começou a expelir densas fumaças e poeiras tóxicas, chamado de “fluxo piroclástico”. Este fluxo, que segundo relatos alcançou a cidade de Pompéia no dia seguinte próximo as 7 horas da manhã, foi o principal responsável pela morte por asfixia da população de Pompeia e seu posterior soterramento.

Este acontecimento foi relatado por Plínio, o Jovem (ou “o Moço”), sobrinho neto de Plínio, o Velho. O jovem de 20 anos ficou observando a erupção de Micenos, e não acompanhou seu tio para perto do vulcão para observar este fenômeno. Estes extensos relatos foram enviados para o historiador Tácito, porem as cartas originais foram perdidas com o tempo e refeitas. “Elas foram copiadas, como quase todos os documentos antigos, durante a Idade Média. Datam dessa época as versões mais antigas”, segundo o arqueólogo Pedro Paulo Funari, da Unicamp.

Mesmo assim esses relatos sendo perdidos e reescritos, eles parecem extremamente verossímeis para pesquisadores. O rapaz descreveu em suas correspondências a erupção desta forma: “A nuvem parecia-se muito com um pinheiro porque, depois de elevar-se em forma de um tronco, desabrochava no ar seus ramos. Creio que era arrastada por uma rápida corrente de vento e que, quando esta cedia, a nuvem, vencida por seu próprio peso, dilatava-se e expandia-se, parecendo às vezes branca, às vezes escura ou de diferentes cores, conforme estivesse mais impregnada de terra ou de cinzas. (...) O Vesúvio brilhava com enormes labaredas em muitos pontos e grandes colunas de fogo saíam dele, cuja intensidade fazia mais ostensivas as trevas noturnas. O dia nascia já em outras regiões, mas aqui continuava noite, uma noite fechada, mais tenebrosa que todas as outras; a única exceção era a luz dos relâmpagos e outros fenômenos semelhantes. (...) Podia-se ouvir os soluços das mulheres, o lamento das crianças e os gritos dos homens. Muitos clamavam pela ajuda dos deuses, mas muitos outros imaginavam que não havia mais deuses e que o Universo estava imerso numa eterna escuridão.”.

Além de Pompeia, outras cidades vizinhas do Vesúvio também foram atingidas pela erupção como Herculano, cujo boa parte da população conseguiu fugir, e Oplontis, porém o maior estrago foi feito na primeira.

As condições físicas impostas pelas cinzas quentes nas cidades, fez com que tanto suas estruturas quanto pessoas atingidas tivessem seu formato preservado. Acidentalmente, telhas que mais tarde se descobriria que faziam parte de Pompéa foram encontradas em 1594 em uma escavação para abrir um canal de irrigação. Mas apenas no século XIX, quando as escavações no local passaram a ocorrer de forma permanente, pode-se ter certeza de que ali era Pompéia. Assim, Pompéia é também símbolo do início das pesquisas arqueológicas de escavação no mundo e a partir dessas foi possível conhecê-la, extremamente conservada cerca de 1700 anos depois da tragédia, junto a alguns de seus costumes, disposição das pessoas e de locais.

Dentre as informações colhidas após a escavação está o grande número de Lupanares, como eram conhecidos bordéis, com pinturas eróticas nas paredes, ou a grande quantidade de escrituras em pisos e paredes com escrituras em latim informal. Foram também encontrados e catalogados em Pompeia 1.044 corpos com, ao invés de pele, uma crosta cinza, que se preenchida com gesso é possível fazer uma “escultura” da ultima posição daquelas pessoas.

Hoje, o sítio arqueológico de Pompeia é visitado anualmente por mais de 2 500 000 turistas de todo o mundo para se depararem com essa tragédia do mundo antigo definida pelo poeta romano Martial: “Tudo em volta do Vesúvio está submerso em chamas e cinzas tristes; nem mesmo os deuses acima gostariam de ter tanto poder” (Epigramsa 4.44.7-8).

Fontes:

CARLAN, Cláudio Umpierre. Amor e Sexualidade: o masculino e o feminino em grafites de Pompéia. História,  Franca ,  v. 26, n. 1, p. 197-199,    2007 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742007000100014&lng=en&nrm=iso>. access on  11  Mar.  2017.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-90742007000100014.[1]

Raffaello Cioni; Sara Levi; Roberto Sulpizio (2000). "Apulian Bronze Age pottery as a long-distance indicator of the Avellino pumice eruption (Vesuvius, Italy) — Abstract". Special Publications. v. 171. Londres: Geological Society. págs. 159–177.
  





O latifundium escravista romano

O latifundium escravista romano

Tema: História Antiga

de Marco Magli

O desenvolvimento do latifundium escravista se dá a partir da expansão de Roma, após as Guerras Púnicas (264a.C -146a.C). Essa expansão territorial que ocorreu por meio de combates com outros povos e cidades. Quando Roma era vitoriosa, muitas vezes além de pegar as terras do inimigo, ainda o fazia um escravo de guerra. Muitos desses escravos eram destinados a trabalhar nos latifúndios. Por isso, a expansão de Roma é também o começo do latifundium escravista em grande escala.

Para Perry Anderson, um historiador marxista, autor de “Passagens da antiguidade para a Idade Média”, o latifúndio era um meio de produção com complexas relações de produção nele. Para ele: “(...)todo potencial do modo de produção escravo foi demonstrado pela primeira vez em Roma.” (ANDERSON, 1991, p.60).

Segundo o autor, a oferta de escravos era tão alta em Roma que, eles não ficavam somente destinados à agricultura e pecuária nos latifúndios, cerca de 90 por cento dos artesãos eram cativos. De 225 a.C até 43 a.C a população de escravos de Roma aumentou em 2.400.000 enquanto, nesse mesmo período a população de homens livres em Roma cresceu apenas em 100.000, estima Brunt. Esses dados mostram como existiram de fato as condições materiais para o estabelecimento do latifundium escravista como um principal modo de produção, no principal setor da economia romana, a produção alimentícia.

Em suma, é possível ver como a expansão romana foi fundamental para a colocação do latifúndio escravista como pilar central da economia de Roma. Além disso, compreende-se que o latifúndio foi fundamental para o estabelecimento do Direito Romano, tema amplamente estudado. Estes conceitos jurídicos foram criados para a regulamentação de contratos e permutas entre cidadãos, ou seja, a produção alimentícia romana, graças ao latifúndio, foi capaz de expandir-se tanto que foi preciso criar leis que regugalessem estas atividades. Assim, é importante lembrar ao final do texto que os latifúndios romanos são essenciais para compreender processos de produção e as relações de produção no seio de Roma.

Bibliografia:
ANDERSON, P. Passagens da antiguidade para a Idade Média. 3.ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.

Bartolomé de las Casas e as contradições do discurso e da prática religiosa na América no século XVI


Bartolomé de las Casas e as contradições do discurso e da prática religiosa na América no século XVI


 Tema: História da América colonial espanhola

de Marco Magli

Resumo: Este texto tem como objetivo buscar os pontos mais importantes na obra “Bartolomé de las Casa e a simulação dos vencidos – Ensaio sobre a conquista hispânica da América” de Hector Bruit. Além disso busca-se estabelecer uma conversa entre o autor supracitado e Enrique Dussel, que trabalharam com a mentalidade no “sul da Europa” e com a história da filosofia na América Colonial. Ademais, de forma breve, é estabelecida no texto a tentativa de trazer à tona a figura complexa e contraditória do frade dominicano Bratolomé de las Casas.


            A obra “Bartolomé de las Casa e a simulação dos vencidos – Ensaio sobre a conquista hispânica da América” (Editora da Unicamp, 1993) é a tese de livre-docência de Hector Bruit para a Unicamp, mas também é o estudo mais reconhecido do autor até hoje, juntamente com “Revoluções na América Latina”. Bruit nasceu no chile, onde formou-se em História e Geografia (1962) e fez sua pós-graduação em História da América na Universidade do Chile (1965). No final dos anos 1960 Bruit radicou-se em São Paulo até o fim da vida, onde obteve seu doutorado em História Social pela USP (1972) e lecionou na Unicamp, Unesp (Marília) e Puc-SP.
            
            O objetivo deste texto é expor algumas das ideias principais de Bruit expostas no capítulo três de sua tese de livre-docência, que como o nome indica, pretende explorar o pensamento do frade dominicano Bartolomé de las Casas. A figura de las Casas é interessantíssima, pois é marcada por contradições de seu pensamento, de suas origens, de seu tempo. É também proveitoso e invariável estabelecer um diálogo intertextual entre Bruit e Enrique Dussel, que trata do surgimento do pensamento moderno Ocidental em sua obra “Epistemologias do Sul: o anti-discurso filosófico da modernidade”, tentando mostrar uma visão multiangular sobre este tema abordado por ambos autores, porém com objetos e abordagens distintas.
            
          Las Casas nasceu em 1486 em Sevilha, no sul da recém unificada Espanha (1469). O fato mais curioso de sua biografia jovem é sem dúvidas, e que contribui com as contradições de las Casas, que aos 6 anos ganhou de presente do pai um “índio”.

Sevilha era o principal porto de saída de empresas espanholas colonizadoras em direção à América, e também era um polo epistêmico. A Universidade de Salamanca, na cidade portuária, era o cerne do que havia de mais inovador e moderno em filosofia e conhecimento formal na Europa, como afirma o mexicano Enrique Dussel, como por exemplo a recém absorvida filosofia aristotélica que começou a ser discutida lá, pois adentrou o continente europeu a partir do sul da Península Ibérica com a dominação moura.
           
            Algumas dessas ideias de Aristóteles começaram a ser usadas por pensadores do sul da Europa como legitimação teórica para a conquista, a colonização e a escravidão de povos nativos. Teoria essa que desejava mostrar uma “desigualdade natural” entre os homens. O autor coloca em suas palavras: “A ideia aristotélica de que alguns homens, por natureza, são seres políticos e outros não, o que divide a humanidade em homens livres e superiores servos por natura, serviu de fundamento a teólogos e juristas, como Ginés de Sepúlveda, para justificar a conquista e servidão dos indígenas.” (Bruit, 1993, pg. 91)

Em Salamanca também discutia-se a obra de São Tomás de Aquino e Erasmo de Rotterdam e por lá passaram, Pedro Gomes Labrador, Hernán Cortés, entre outros colonizadores antes de sua empreitada. Las Casas também passou por Salamanca, onde estudou Humanidades e Latim, antes de embarcar para a América em 1502.

Bruit não ignora este fato importante na vida e na trajetória do pensamento de las Casas e resume: “os pensadores espanhóis em geral, e os da escola de Salamanca em particular, deram uma contribuição indiscutível ao conceito de igualdade de direitos e deveres entre os homens; à ideia da liberdade das pessoas para mobilizarem-se entre os diferentes territórios do mundo; ao conceito de liberdade política dos povos; ao princípio da origem popular do poder real.” (Bruit, 1993, pg. 98)

O período que abrange a vida de las Casas, se estende por todo o período de “conquista” e parte inicial da “colonização” da América. Esses tempos não foram conturbados somente na prática, mas também foram muito decisivos e inflamados na efervescente academia espanhola. Entre 1530 e 1580 aproximadamente, é que se dá a grande concentração desses debates, numa conjuntura americana impactada pela enorme e importante queda demográfica mesoamericana do século XVI. Neste período há o debate ético que pretende discorrer sobre o “bem” e o mal na colonização, que para Dussel é um tema que abrange e toca em preocupações da modernidade.  Além da queda demográfica e o debate ético, outro assunto em pauta na época eram as encomiendas, o embate entre o poder do encomendero e da Coroa, mas principalmente, e que esta também relacionado ao domínio territorial: a guerra justa.

O conceito de “guerra justa” já era palpável pela Igreja Católica desde as primeiras Cruzadas, mas é retomado e reformado no final do século XV com as navegações ultramarinas ibéricas. Para o autor: “Em termos gerais, os princípios básicos que regulavam a guerra era: injúria prévia por parte dos infiéis, a posse injusta de domínios e propriedades e quando os infiéis, com seus atos, atentavam contra a paz. Toda teoria da guerra justa estava baseada nestes três pontos.” (Bruit, 1993, pg. 95)

Juntamente com a guerra justa surge também a discussão sobre a evangelização e a violência. No centro deste debate estão dois importantes nomes espanhóis: Domingo de Soto e Francisco de Vitória. O pensamento deles é expresso pro Bruit: “Para Vitoria, era viável usar a força quando os bárbaros impediam os espanhóis de anunciar livremente o Evangelho, mas rejeitava o uso da mesma para obrigar os índios a aceitarem a conversão (...) Diferentemente Soto defendeu a ideia de que a vontade dos infiéis devia ser respeitada nos dois momentos, isto é, se não quisessem escutar os predicadores, estes deviam retirar-se, e nem sequer o papa tinha direitos para obrigá-los a escutar o Evangelho.” (Bruit, 1993, pg. 99)

Las Casas é um personagem contraditório, pois em princípio defendeu a colonização e a evangelização forçada dos índios e depois foi um dos mais duros críticos à colonização espanhola na América, a ponto de escrever sobre este processo que “Todas as coisas obedecem ao dinheiro e os índios evangelizados são instrumento para alcançar o ouro" (Bruit, 1993, pg. 90), no “Tratado comprobatorio del imperio soberano”.

A tal “conversão” de las Casas se dá em 1511, quando o jovem frade ouve outro dominicano, António de Montesinos, que em sermão defendia a dignidade dos índios. A partir deste dia renunciou suas encomiendas e começou a fazer um trabalho de pesquisa, descrição e denúncia que foi trazido e afastado do debate intelectual por diversos grupos e interesses ao longo da história.

Las Casas faz discussões extremamente modernas em sua lógica e atuais até os dias de hoje, como quando debate a questão da representatividade política na Coroa espanhola, para atacar suas ações, como explica Bruit: “O povo delega a soberania ao rei para que este governe em função do bem comum, finalidade que autoriza o governante a ditar leis que podem limitar os direitos individuais, mas nunca os direitos coletivos. O bem comum devia ser o ponto de equilíbrio entre o rei e os súditos. Quando o poder não era produto do consenso e da eleição, então era tirânico(...)”. (Bruit, 1993, pg. 108)

Embora por muito tempo foi taxado de extremista em suas críticas, las Casas tomava atitudes bem “moderadas”, refletindo toda a discussão e seu posicionamento moral, como mostra o autor: “Las Casas não defendeu todos os índios, censurou e denunciou os Caciques que exploravam os povos, que alugavam terras aos índios mais desvalidos, os índios traidores. Tampouco condenou os colonizadores em geral.” (Bruit, 1993, pg. 109)

O grande episódio acadêmico da vida de las Casas foi o Debate de Valladolid (1550), quando, por ordem do Rei Carlos I da Espanha, foram reunidos juristas, religiosos e outros pensadores, inclusive o Rei, para ouvir um debate entre las Casas e um opositor de suas ideias e adepto das ideias aristotélicas, Juan Ginés de Sepúlveda.

Pelos relatos, parece que a retórica de ambos era, embora abstrata, muito precisa. Las Casas, porém, faz uma argumentação muito mais detalhada e demorada que a de Sepúlveda. Para o debate, las casas preparou a obra “’Apologética historia de Ias Indias’, um monumental tratado etnológico com 257 capítulos e pouco menos de oitocentas páginas, que contêm a argumentação histórica. Esse enorme material, não apenas explica os cinco dias de exposição na primeira sessão, mas evidencia que o dominicano foi para o debate disposto não só a convencer o tribunal, mas para arrasar com seu contendor.” (Bruit, 1993, pg. 122)

Destarte, para os que estavam presentes deve ter sido clara a superioridade de las Casas no debate teórico, porém de fato o ganhador, no campo da praxis foi Sepúlveda, pelo simples fato de suas ideias terem sido adotadas e consideradas mais interessantes para a Coroa espanhola.

Assim, mesmo com toda a preparação retórica e o tratamento textual dado por las Casas, suas reflexões não passaram do plano abstrato em geral e seus escritos foram por muito tempo deixados de lado do debate intelectual. Hoje, esses escritos podem e devem ser retomados para análises e trabalhos sérios dos estudantes de História e Filosofia, tanto na América Latina quanto na Península Ibérica, pois faz parte de um pensamento que embora existisse e pareça tão atual e crítico, esse esteve longe de ser o discurso hegemônico e, por conseguinte, a prática nas colonizações.

Bibliografia:

HERNÁN BRUIT, H. Bartolomé de las Casas e a simulação dos vencidos: ensaio sobre a conquista hispânica da América. 1993. 228 p. Tese (livre-docência) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas. 1993.[1]

DUSSEL, ENRIQUE. Meditaciones anti-cartesianas: sobre el origen del anti-discurso filosófico de la Modernidad. Tabula Rasa,  Bogotá ,  n. 9, p. 153-198,  Dec.  2008 .   Available from <http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1794-24892008000200010&lng=en&nrm=iso>. access on  11  Mar.  2017.[2]

A organização social mesoamericana antes da chegada dos espanhóis e o embate de discursos de poder

A organização social mesoamericana antes da chegada dos espanhóis e o embate de discursos de poder
           
Tema: História Americana Antes da Conquista Europeia

de Marco Magli

A leitura da obra “Deuses do México Indígena: estudo comparativo entre narrativas espanholas e nativas” é fundamental para a compreensão da formação e desenvolvimento das sociedades mesoamericanas, pois contrapõe-se à visão eurocêntrica da figura indígena estereotipada, conferindo-lhe história, pensamento e registro. Leva o leitor a fazer questionamentos relevantes acerca da situação atual dos remanescentes povos nativos dessas regiões. Isso pois, é expressa com clareza e exemplos a complexidade das formas de organização e integração social pré-colombiana na Mesoamérica (área que abrange aproximadamente entre o Panamá e os EUA), seus sistemas de pensamento e poder, deixando para trás o mito das sociedades indígenas “atrasadas” e “primitivas”.

Este livro de leitura fluida é ideal para quem quer entender mais do imaginário, composição e universo cultural das sociedades pré-hispânicas na Mesoamérica, sejam leigos ou especialistas. Uma visão multifacetada mas estrutural é importantíssima para compreender direito, não só a igualdade, mas como a diferença.

Para um futuro historiador, ter o contato com esse texto é entrar num terreno fértil e pouco explorado da discussão historiográfica sendo assim apresentado a algumas possibilidades de debates sobre este tema. Para estudantes brasileiros essa obra seria um exercício de leitura interessante. Ela quebra a visão comum que exista um “índio brasileiro” ou um “índio mexicano”, pois seus povos estavam nestes lugares antes se existir um Brasil ou México, ajudando a criar um vínculo de identidade latino-americana.
            
        O Doutor em História Social Eduardo Natalino dos Santos examina cuidadosamente a Mesoamérica, partindo do conceito de área cultural e explorando as singularidades e semelhanças das atividades, símbolos e significações dentro desta região. Semelhanças tais como “o cultivo de milho como base alimentar, o uso de um bastão de madeira com a ponta afiada para plantar, a produção de pulque e papel de agave, práticas de auto-flagelação e sacrifícios humanos, cultivo do cacau, jogo de pelota, construção de pirâmides escalonadas e a produção de armadas de madeira com bordas laminadas de pedra” (SANTOS, 2002, p.40) foram fundamentais para Paul Kirchoff desenvolver estudos sobre a Mesoamérica em 1943, cunhando este conceito.
            
          Entretanto, Santos não mostra apenas as semelhanças a respeito da vida material dos diversos povos que ocupavam aquela região, mas foca-se primordialmente em apresentar características parecidas ligadas ao campo do pensamento, por exemplo os sistemas de calendário e de escrita. Como já aponta o subtítulo da obra, o autor não irá preocupar-se em fazer uma análise arqueológica dessas sociedades, mas as analisá-las a partir dos registros em suas mais diversas formas e fontes.
            
         Eduardo dos Santos aponta o sistema calendário como central na cultura das sociedades mesoamericanas: “(...) o sistema de calendário possuía particularidades, mas seus fundamentos eram os mesmos por toda a Mesoamérica.” (SANTOS, 2002, p.80). Esse elemento cultural, político e econômico surge provavelmente com os Olmecas, primeiro povo hierarquizado da região, sendo desenvolvido posteriormente por zapotecas, teotihuacanos e maias e recebendo novas particularidades de cada povo, porém sem perder seu sentido fundamental. Suas vidas eram pautas por datas e eventos estabelecidos naquele método cíclico de contagem do tempo.
            
             O calendário era central para o discurso de poder religioso, político e econômico, como mostra Eduardo dos Santos: “Mais do que uma forma de apenas contar os dias e os anos, o calendário Mesoamericano organizava todas as esferas da vida: as plantações, as viagens, as festas, as guerras, o mercado, o destino, etc.” (SANTOS, 2002, p.83). Era também componente de distinção social em todos estes povos, consequentemente o conhecimento da elaboração e interpretação desses sistemas estava nas mãos de sacerdotes. “Esse ciclo de 260 dias (...) era dividido em vinte trezenas que eram expressas em livros pictloglíficos com finalidades mânticas, chamados de tonalamatl. Esses livros eram utilizados por sacerdotes especializados em prognósticos que envolviam todas as esferas da vida mesoamericana.” (SANTOS, 2002, p.81).
            
             A cosmografia mesoamericana é um outro elemento de destaque pelo autor para demonstrar uma proximidade da mentalidade mesoamericana como um todo, como expressa de forma concisa o autor: “Os povos mesa americanos também compartilhavam uma complexa e detalhada cosmografia ou visão do espaço.” (SANTOS, 2002, p.86). A verticalidade era compreendida em treze céus e nove inframundos. Entendia-se o espaço horizontal em cinco dimensões, expresso na arquitetura de muitas cidades com quatro bairros e um centro.
            
              O item porém que se vale como maior objeto de estudo do autor é o da escrita. Este é a principal fonte de pesquisa de Eduardo dos Santos e com seus resultados é também discutida no texto a questão do método de análise desses registros, sejam espanhóis ou indígenas, observando suas capacidades e limiares. Quando introduz este tema, o autor busca apontá-lo como peça de um discurso de poder e diferenciação nas sociedades mesoamericanas, assim como o professor da UNICAMP Leandro Karnal no texto “As crônicas ao sul do Equador” quando aponta que “Esses livros eram considerados tão importantes que o ilamaiini, ou o sábio, também era chamado de amoxohioca, isto é, o que possui o amoxtli ou o que segue o caminho do livro.” (SANTOS, 2002, p.87).
            
            Além dos livros de tributos e controle de mercadorias, a leitura organizava a sociedade mesoamericana reservando um lugar de sábios àqueles que tinham o saber da leitura, além de gerar especialistas na produção de livros e sua guarda. A escrita e a leitura eram de importância vital para o desenvolvimento dessas sociedades, pois permitia o registro da narração, fornecendo ferramentas necessárias para surgir gradativamente um novo pensar e produzir sentido para a vida. “Esses livros utilizavam um sistema de escritura com sua própria lógica interna, capaz de representar plenamente a sequência do pensar e a expressão da palavra, com ou sem auxílio de uma tradição oral.” (SANTOS, 2002, p. 88).

Quando os espanhóis atingiram a América, os povos então lá estabelecidos já possuíam suas bibliotecas e livros, ou seja, seus modos de registro, como os códices. Esses registros deveriam ser melhor explorados por pesquisadores segundo Santos, pois conferiria um pluralismo de vozes às quase oficializadas crônicas espanholas, abrindo mais um horizonte analítico. Porém, assim como na chegada dos europeus, como ainda hoje, a produção escrita indígena não era considerada intelectual, por isso seus escritos são descartados como documentos históricos, o que demonstra um interesse em que a história seja contada seguindo a lógica cristã e europeia, como aponta o autor no trecho destacado: “Essa situação mostra que optamos pela narrativa espanhola em detrimento de uma enorme pluralidade de vozes testemunhos, ou seja, selecionamos os relatos que se encaixavam na construção da história do moderno império espanhol e nas teorias explicativas cristãs ocidentais."
            
         A negação aos livros indígenas se aproxima de uma recusa em tentar entender de forma orgânica e hermenêutica o modo de pensar daqueles que os escreveram, baseando-se na insustentável dicotomia entre o discurso mítico e histórico, como se as representações coletivas dos povos mesoamericanos não fossem carregadas de saberes, informações e significados. Santos rejeita essa teoria afirmando que: “(...) a dicotomia entre discurso mítico e histórico não sustenta, pois o que o mundo ocidental chamou de mítico não possui um conteúdo específico, mas define-se como o oposto de um discurso que se auto-intitula científico, isto é, totalmente objetivo e universal. O que o mundo ocidental chama de mítico são relatos que nos contam representações coletivas que não são as nossas e cujos fundamentos nos são desconhecidos.” (SANTOS, 2002, p.91). Esse excerto ilustra a relação mito-história, base dos trabalhos do autor.

Todavia, a produção escrita mesoamericana apresenta alguns problemas para o estudo do pesquisador, como dificuldades de interpretação ou contextualização errada da fonte, e principalmente as mudanças do conteúdo advindas da tradução, como expressa Santos em: “Ao lidarmos com essas fontes, temos que considerar toda a problemática envolvida na transposição dos conteúdos contidos nos códices de escrita pictoglífica para os textos transliterados, muitos dos quais foram traduzidos posteriormente para alguma língua europeia. Tal processo gerou uma restruturação que, certamente, acarretou profundas alterações, pois a escritura pictoglífica foi fragmentada em diferentes formas de relatos: mapas, textos históricos, políticos e cosmogônicos.” (SANTOS, 2002, p.95). Por isso, para um exame integral do mundo mesoamericano o estudioso deve mesclar entre produções indígenas, espanholas e até produções entre ambos, como indígenas catequisados.

Além da complexidade cultural, o autor apresenta também a ideia de diversidade e concomitância temporal, que se mostra no quadro “1.2 Los períodos mesoamericanos”. O início de seu estudo faz uma fotografia panorâmica temporal mesoamericana, tratando desde seus primeiros habitantes, sem unidade cultural ou a prática do sedentarismo, até cada povo que desenvolveu em tempos concomitantes ou diferentes.

A primeira passagem aprofundada por Eduardo dos Santos é a da sociedade nômade para uma sedentária baseada na agricultura. O desenvolvimento das técnicas de plantio, principalmente a mudança genética do milho que levou anos de intervenção humana, foram forças centrais para o abandono da caça e o aumento da dependência na produção agrária.

Além de mudar a organização espacial e da rotina desses povos, o milho foi fundamental para introduzir uma cultura religiosa baseada nesse vegetal, assim começou-se a olhar para os céus para prever o clima e assim desenvolveu-se a astrologia que era empregada nos calendários. Dessa forma o autor expõe o milho só como fator de mudança econômica e social, mas de origem para uma cultura com um sentido semelhante, vista na Mesoamérica, como exposto no trecho: “A partir do desenvolvimento e da aplicação dessas práticas agrícolas e da crescente sedentarização, vários povos tiveram sua organização social e econômica alterada, o que ocorreu conjuntamente com a criação-adoção de uma nova visão de mundo, mais apropriada a um modo de vida sedentário e agrícola(...)” (SANTOS, 2002, p. 49)  

Depois de reconhecer e explicar a presença Olmeca quase como um denominador comum como base das culturas que se desenvolverão futuramente na região abordada, Natalino apresenta Teotihuacan, os zapotecas e a origem das cidades maias. A difusão do povo Olmeca se dá por inúmeros fatores. Um deles é o desenvolvimento comercial Olmeca fortalecido por volta de 600 a.C. que dá origem a cidades, com centros comerciais, cerimoniais e urbanos, no lugar de povoados ou aldeias.

Os zapotecas são introduzidos no texto com o poderio do Monte Albán, no atual estado mexicano de Oxaca. Fica claro no texto que o desenvolvimento desse povo se dá paralelamente ao desenvolvimento de Teotihuacan, e também que não se restringiu tão somente a região já citada, mas espalhou-se pelos atuais estados de Puebla, Guerrero, Chiapas e Veracruz criando uma confederação de cidades.

Além dos olmecas e zapotecas, desenvolveram-se concomitantemente na Península de Iucatã, Belize e Guatemala, cidades maias, que, embora não possuíssem um centro unificado, partilhavam traços culturais similares. Essas cidades floresceram muito antes da chamada “cultura maia” ser um conceito palpável. Além das inspirações Olmecas, as cidades maias sofreram influências dos zapotecas como a escrita pictoglífica. Portanto, ressalta-se que os centros urbanos que ganharam importância no Período Clássico (200 d.C. – 900 d.C.) foram agentes da solidificação de características observadas de forma incipiente nos olmecas.

A cidade de Tula é retratada pelo autor como um possível marco civilizacional das sociedades americanas. Os toltecas desenvolveram juntamente com essa cidade alguns dons sociais como “as casas de jejuns e cultos, os templos redondos, os auto-sacrifícios e as artes e ofícios em geral.” (SANTOS, 2002, p.65). É possível que tenham existido várias “Tulas” na Mesoamérica, pois esse nome talvez fosse sinônimo de “grandeza” visto o emprego do termo em inúmeros registros. Com a queda de Tula, os toltecas se espalharam pelo Vale do México e houve um período de intensificação da instabilidade política resultando num aumento dos confrontos entre povos. Isso abriu caminho para que os povos do norte do atual México pudessem conquistar novas terras.

São apresentados por fim os mexicas ou astecas ao leitor. Saídos de sua terra de origem, Aztlan, em 1111 d.C. por excesso populacional os mexicas rumaram ao sul. Essa migração que durou mais de 220 anos em busca de um lugar para fixar-se terminou em meio a um lago artificial que seria um dia o centro histórico da Cidade do México. Em torno desse lago os mexicas estabeleceram cidades de origem mexica. Tlatelolco e Tenochtitlan destacaram-se como centros político-comerciais.

Destarte, é importante ler a obra de Santos sabendo que ele está defendendo suas teses, seus interesses, assim como qualquer escritor, antigo ou contemporâneo, indígena ou europeu. Portanto a análise da sociedade indígena pré-colombiana passa por um exercício de escolha e interpretação de fontes, “por meio de perguntas adequadas, talvez estabelecer traços culturais básicos, assinalar as continuidades e mudanças dessas explicações ao longo do tempo e do espaço, explicitar as estruturas de conhecimentos utilizados em suas produções e buscar entender a história dos grupos que as produziram” (SANTOS, 2002, p.91). O discurso de poder estava presente e desenvolvido na sociedade americana antes da chegada europeia, ou seja, quando os espanhóis chegam no “Novo Mundo” há um embate de culturas e sistemas de pensamentos, que é quase sempre trazido ao leitor pela visão do conquistador.

O texto deixa claro que esses discursos estavam espalhados em toda a sociedade, desde a forma produtiva, as artes, a arquitetura, as cerimônias, a língua e o calendário. Desse modo, apresenta a possibilidade do estudo desses povos pré-hispânicos por meio de fontes não apenas textuais, como faz o autor, mas também analisá-las a partir de seu imaginário, mentalidade e práticas, atingindo por fim as logicas por trás de seu sistema de pensamento.

Bibliografia:

DOS SANTOS, E. N. Deuses do México indígena:  Estudo comparativo entre narrativas espanholas e nativas. São Paulo: Palas Athena, 2002. 232 p.